quinta-feira, 30 de junho de 2011

A casa da praia


Depois de uns longos dias passados no campo, com as flores, os abetos e os rios decidiu voltar à sua casa, a casa da praia. A viagem não era muito longa e, por isso decidira ir a fim da tarde, porque tudo era mais bonito e quente ao fim da tarde.
Era uma casa na praia como qualquer outra casa, simples com sabor a sal e a sol. As paredes eram brancas e as janelas, com portadas vermelhas tinham pequenos vasos no parapeito. Já lá tinha passado muitos momentos, bons ou maus, já não se lembrava, a única certeza que possuía era que pertencia ali.
Entrou, estava tudo como tinha deixado há um mês, só uma diferença: o pó havia-se acumulado em todos os recantos da casa. Subiu para o seu quarto, pousou o saco e olhou pela janela. Há tanto tempo que já não via o mar! E sentiu o seu cheiro absorvia-o como nunca. Cheirava a velas, a peixe, a rochas. Cheirava a mar e isso bastava-lhe para estar feliz.
Tomou um banho e decidiu ir ao sótão, já lá não entrava há anos. Gatinhou lá para dentro e deparou-se com um álbum de fotografias. Quis vê-lo mas tinha medo, não queria voltar a lembrar-se da sua vida antiga, dos caminhos que tinha tomado. Inspirou profundamente, como se de um mergulho no profundo oceano se tratasse e abriu-o. Ali estavam as fotografias da pequena Sofia, de vestido às flores a correr atrás de um animal qualquer. Mais à frente via as fotografias da sua juventude e das suas revoltas, sempre com a música e o sonho às costas. E numa fotografia distinguiu, entre uma multidão de gente que entoava cânticos de paz, os seus amigos: o rapaz loiro e a rapariga das tranças como gostava de lhes chamar. Por momentos sentiu-se feliz, mas nunca compreendera porque é que eles tinham desaparecido da sua vida. Isso entristecia-a. Deles só conservava as cores vivas das roupas e os olhos brilhantes. Perdera-os, não sabia onde estavam. Fechou o álbum revoltada e de lá caiu uma margarida seca pelo tempo, nesse momento desatou a chorar e os seus olhos brilharam, era tudo o que ela queria ver! Levou a flor consigo, pois naquele instante era o último grito de esperança da sua vida. Lá fora a noite chegava suavemente.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Solstício


O sol brilha lá fora, os pássaros chilreiam e o manjerico no peitoril da janela emana o seu cheiro que ela sorve como um néctar divino.
Os seus projectos já tinham sido maiores. Em tempos sonhara construir uma casa no meio do campo, ter uma quinta e mudar mentalidades. Achava, como todos que o seu país era pequeno demais e que a sua população era estupidamente básica e indecente. Os vícios dos outros repugnavam-na, porque eram um espelho dos seus próprios vícios. Já tinha, no seu passado intransigente viajado por entre manifestos e festas em que achava ter ganho alguma coisa. Desejara profundamente amar tudo e amar todos. Amar até que o coração o não quisesse mais. Ninguém estava lá para ela, mas ela não queria avançar, ninguém quer. Ameaçava o seu bem-estar. Seria doloroso fazê-lo como se tentasse educar um pequeno diabrete. Hoje senta-se na sua sala, olha pela janela e vê o sol. O céu parece novo, novo como nunca lhe pareceu antes e porque não lutar por um pedaço de sol? Todavia não lhe apetece minimamente sair da poltrona! Rebenta. Porquê lembrar-se de novo desses tempos irreverentes? Em que queria mudar tudo e a ela própria.
As coisas tendem a ficar onde estão é a sua natureza. Ela ia ficar na sua poltrona mais um pouco a olhar o céu e os pássaros na árvore. E cheirava a manjerico e a margaridas e a sol! Essas eram as únicas coisas que nunca a desiludiam, porque elas nunca fariam parte de si...

domingo, 19 de junho de 2011

Livre


Sabes quanto mais o tempo passa mais gosto de ti.

(Nunca me dás resposta, até porque estas expressões são ténues fumos na atmosfera. Fumos tão ténues quanto a minha coragem)
E as únicas palavras que alguma vez trocaremos serão sobre outros e futilidades. Nunca falaremos de nós, porque esse vocábulo é demasiado obrigatório e, talvez por isso, pouco evidente aos teus olhos.
Um dia vou avançar, um dia... São sinais que eu não entendo e não tenho coragem para decifrar, por isso aventuro-me a imaginar que marionetas povoam a tua cabeça. E quando me dizem a verdade o meu coração aperta-se, porque, no fundo ainda pensava que os nossos espíritos não são livres e que tu podias não ser de ninguém...