quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Na praça da cidade

A meio do caminho a chuva parou o que tornou a viagem surpreendentemente mais simples e clara. Não propriamente a viagem, mas o objectivo que a orientava. Sofia dirigia-se ao centro da cidade, onde era mais provável, mas não certo, que encontrasse finalmente Maria ou Rui. Estacionou o carro debaixo de uns carvalhos velhos e, por momentos, quis voltar atrás e regressar noutro dia qualquer, mas respirou fundo e caminhou em direcção à praça.
Sofia entrou na pastelaria, lá dentro cheirava bem, verdadeiramente bem, cheirava a café quente, a croissants, a queques, a pão, a tudo o que se pudesse imaginar! As paredes da pastelaria estavam decoradas com telas de mesas de jantar, cestas de fruta e de horas do chá. E Sofia sentia-se aconchegada como na sua infância, aquela pastelaria fez-lhe recordar os dias de inverno que passava na casa da avó onde cheirava sempre a biscoitos e a café acabado de fazer.
Sofia sentou-se perto da janela e pediu um queque e um chá, pois a fome, tal como o medo, não lhe dava tréguas. Em poucos minutos entrou numa espécie de sono-sonho, não dormia mas não estava acordada. Pensava no passado, no presente, no futuro, pensava principalmente no que diria a Maria ou a Rui se os visse, o que lhes iria perguntar?
- Sofia? Sofia! Oh! Há tanto tempo que não te via! Sofia! Sofia? Sofia!! - gritava alguém que a abanava continuamente.
Bruscamente Sofia voltou à realidade, olhou para a mulher, nem entendeu quem era.  Parecia-lhe apenas uma estranha cuja cara possuía um singular toque de familiaridade.
- Sofia! Está tudo bem?
Finalmente conseguiu perceber quem era: Maria! Já não usava tranças e, também por isso demorara a reconhecê-la. Sofia não esperava encontrá-la tão facilmente!
- Maria? Maria és mesmo tu? Eu não posso crer! - exclamou Sofia enquanto se abraçava à amiga. Não queria mesmo acreditar que, a partir de agora podia ver todas as suas perguntas respondidas!
 - Claro que sim! Sou eu, quem mais poderia ser? Há tanto tempo que não nos víamos, desde...
- Desde do secundário. 
Depois de uma pausa sentaram-se e conversaram sobre as suas vidas depois de se separarem. Maria parecia feliz, contou que vivia na cidade vizinha por questões de trabalho. E que tinha feito Sofia nestes anos?
- Bem, realizei o sonho de ter uma casa na praia e um cão. - declarou Sofia.
- Uma casa na praia, adorava!
- Houve assuntos pendentes que não me deixaram avançar muito mais...
- Quais? Sofia sempre achei que nunca deixasses questões pendentes na tua vida.
- E não deixo, por isso vos procurei. Precisava de te encontrar a ti ou ao Rui. Como está o Rui? Ainda falas com ele?
- Já há algum tempo que não nos contactamos. Da última vez que falamos estávamos ambos no aeroporto, eu ia de férias e ele ia para Londres em trabalho. Parecia feliz. Está casado com uma mulher que ama e tem um bom emprego, que mais pode pedir?
- Paz de espírito talvez...
- Sofia, eu não sei o que se passa, mas espero que me digas, sempre fomos amigas e continuamos a ser. - disse Maria sorrindo.
- Se somos amigos, porque desapareceram simplesmente? Porque foram e nunca mais voltaram? Espero que estejam realmente felizes! Sofia saiu disparada da pastelaria, Maria correu atrás dela sobressaltada e surpreendida. Já na praça, voltaram a sentar-se e Maria questionou a amiga.
- Para que foi essa reacção? Sofia alguma coisa se passa, sabes que podes...
- Porque é que se afastaram, porque é simplesmente desapareceram da minha vida? Vocês eram meus amigos e agora... - murmurou Sofia.
- Sofia! Nós somos teus amigos e continuamos aqui. As pessoas simplesmente avançam. Move on! Não era o que estavas sempre a dizer? Cada um de nós seguiu um caminho diferente, só isso e, infelizmente, por vezes, acabamos por nos afastar, o que não significa abandonar a nossa amizade! Tal coisa nunca poderia acontecer!
Neste momento, Sofia pensava que afinal nem tudo poderia ser verdade. Ainda há minutos julgava que Maria e Rui tinham simplesmente desaparecido da sua vida, sem sequer se interessarem. Agora tudo parecia fazer mais sentido e, tudo o que a havia travado estes anos tinha-se, simplesmente desvanecido como a neblina matinal.
- Sabes também me sentia triste por não nos vermos, mas nunca tive coragem para vos procurar... - confessou Maria.
Sofia sorriu, os seus olhos brilharam como nunca e disse:
-Que tal uma lasanha para o jantar?
Maria riu:
- Acho que ainda tenho o número do Rui, precisamos de um homem, para não comermos demais!
Sorriam enquanto caminhavam em direcção ao carro de Sofia.





domingo, 7 de agosto de 2011

Caminho


Sofia resolveu deitar-se. Passara horas a olhar para a margarida já seca, apesar de se ter sentido extremamente feliz após a ter visto, agora recuava. Não queria despertar esperanças e emoções que tanto lhe custaram a acalentar.
Acordou muito cedo com o som da chuva contra as janelas, levantou-se e percebeu que, talvez hoje não fosse o dia mais indicado para a sua façanha. Desceu, sentou-se na cozinha a beber um copo de leite quente e deixou-se morrer ali na cadeira, ouvindo a chuva a cair ruidosamente. Enquanto essa moleza de inverno a invadia, refletia sobre o que tinha acontecido há uns anos. Talvez sem se aperceber ou talvez propositadamente tinha-se afastado dos seus amigos mais queridos e mais próximos. Começou a distanciar-se lentamente e iniciou uma nova fase da sua vida. Com o passar dos anos Sofia entendia cada vez melhor o mundo, e isso era, provavelmente o mais habitual. Há uns anos atrás julgava que todos eram amigos. Hoje sabia que ninguém se preocupa verdadeiramente, a não ser consigo próprio... Apesar de compreender melhor o intrincado e hipócrita comportamento humano, Sofia nunca entendera porque é que Rui e Maria a tinham deixado. Eram os únicos que restavam, depois de ela ter abandonado tudo. Acordou daquele estado de dormência, continuava a chover copiosamente, subiu, vestiu-se, voltou a descer e olhou para o sofá onde estava a margarida seca, pegou nela e olhou-a como se olha alguém que já não vemos há anos. Nesse momento percebeu que tinha muitas perguntas pendentes, as quais exigiam que resolvesse este enigma o mais celeremente possível. Abriu a porta e o vento forte invadiu a casa, olhou a praia, não era a mesma praia do dia anterior: o mar estava revolto, a espuma branca erguia-se nas rochas e o nevoeiro era espesso e frio como um muro de granito. Resolveu vestir o blusão, o inverno parecia ter chegado, no entanto estávamos ainda em Setembro.
Correu para o carro, depois de algumas tentativas arrancou e pôs-se a caminho, estava preparada para demorar, no entanto encontrou Maria mais rapidamente do que esperava.