Respirar paraísos, sentir infernos, voar de alma em alma, ser feliz, ser doente... A que saberá a Vida?
domingo, 2 de outubro de 2011
Memorial do Convento (excerto pp.73/74)
Senti-me verdadeiramente tentada a publicar este excerto do "Memorial do Convento" de José Saramago, é uma cena absolutamente linda e intrigante! Espero que gostem tanto como eu ;)
"Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires,Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.
Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus . Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora,depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro."
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Informação
Publiquei um conto neste blog que começa no post intitulado "Solstício" e termina no post "Na praça da cidade" (incluindo os posts "A casa da praia" e "Caminho"). Peço desculpa por ter publicado o conto fragmentado e em datas diferentes, mas a inspiração só me visita de quando em vez. :)
De qualquer das maneiras podem lê-lo integralmente aqui com alguma paciência.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Na praça da cidade
A meio do caminho a chuva parou o que tornou a viagem surpreendentemente mais simples e clara. Não propriamente a viagem, mas o objectivo que a orientava. Sofia dirigia-se ao centro da cidade, onde era mais provável, mas não certo, que encontrasse finalmente Maria ou Rui. Estacionou o carro debaixo de uns carvalhos velhos e, por momentos, quis voltar atrás e regressar noutro dia qualquer, mas respirou fundo e caminhou em direcção à praça.
Sofia entrou na pastelaria, lá dentro cheirava bem, verdadeiramente bem, cheirava a café quente, a croissants, a queques, a pão, a tudo o que se pudesse imaginar! As paredes da pastelaria estavam decoradas com telas de mesas de jantar, cestas de fruta e de horas do chá. E Sofia sentia-se aconchegada como na sua infância, aquela pastelaria fez-lhe recordar os dias de inverno que passava na casa da avó onde cheirava sempre a biscoitos e a café acabado de fazer.
Sofia sentou-se perto da janela e pediu um queque e um chá, pois a fome, tal como o medo, não lhe dava tréguas. Em poucos minutos entrou numa espécie de sono-sonho, não dormia mas não estava acordada. Pensava no passado, no presente, no futuro, pensava principalmente no que diria a Maria ou a Rui se os visse, o que lhes iria perguntar?
- Sofia? Sofia! Oh! Há tanto tempo que não te via! Sofia! Sofia? Sofia!! - gritava alguém que a abanava continuamente.
Bruscamente Sofia voltou à realidade, olhou para a mulher, nem entendeu quem era. Parecia-lhe apenas uma estranha cuja cara possuía um singular toque de familiaridade.
- Sofia! Está tudo bem?
Finalmente conseguiu perceber quem era: Maria! Já não usava tranças e, também por isso demorara a reconhecê-la. Sofia não esperava encontrá-la tão facilmente!
- Maria? Maria és mesmo tu? Eu não posso crer! - exclamou Sofia enquanto se abraçava à amiga. Não queria mesmo acreditar que, a partir de agora podia ver todas as suas perguntas respondidas!
- Claro que sim! Sou eu, quem mais poderia ser? Há tanto tempo que não nos víamos, desde...
- Desde do secundário.
Depois de uma pausa sentaram-se e conversaram sobre as suas vidas depois de se separarem. Maria parecia feliz, contou que vivia na cidade vizinha por questões de trabalho. E que tinha feito Sofia nestes anos?
- Bem, realizei o sonho de ter uma casa na praia e um cão. - declarou Sofia.
- Uma casa na praia, adorava!
- Houve assuntos pendentes que não me deixaram avançar muito mais...
- Quais? Sofia sempre achei que nunca deixasses questões pendentes na tua vida.
- E não deixo, por isso vos procurei. Precisava de te encontrar a ti ou ao Rui. Como está o Rui? Ainda falas com ele?
- Já há algum tempo que não nos contactamos. Da última vez que falamos estávamos ambos no aeroporto, eu ia de férias e ele ia para Londres em trabalho. Parecia feliz. Está casado com uma mulher que ama e tem um bom emprego, que mais pode pedir?
- Paz de espírito talvez...
- Sofia, eu não sei o que se passa, mas espero que me digas, sempre fomos amigas e continuamos a ser. - disse Maria sorrindo.
- Se somos amigos, porque desapareceram simplesmente? Porque foram e nunca mais voltaram? Espero que estejam realmente felizes! Sofia saiu disparada da pastelaria, Maria correu atrás dela sobressaltada e surpreendida. Já na praça, voltaram a sentar-se e Maria questionou a amiga.
- Para que foi essa reacção? Sofia alguma coisa se passa, sabes que podes...
- Porque é que se afastaram, porque é simplesmente desapareceram da minha vida? Vocês eram meus amigos e agora... - murmurou Sofia.
- Sofia! Nós somos teus amigos e continuamos aqui. As pessoas simplesmente avançam. Move on! Não era o que estavas sempre a dizer? Cada um de nós seguiu um caminho diferente, só isso e, infelizmente, por vezes, acabamos por nos afastar, o que não significa abandonar a nossa amizade! Tal coisa nunca poderia acontecer!
Neste momento, Sofia pensava que afinal nem tudo poderia ser verdade. Ainda há minutos julgava que Maria e Rui tinham simplesmente desaparecido da sua vida, sem sequer se interessarem. Agora tudo parecia fazer mais sentido e, tudo o que a havia travado estes anos tinha-se, simplesmente desvanecido como a neblina matinal.
- Sabes também me sentia triste por não nos vermos, mas nunca tive coragem para vos procurar... - confessou Maria.
Sofia sorriu, os seus olhos brilharam como nunca e disse:
-Que tal uma lasanha para o jantar?
Maria riu:
- Acho que ainda tenho o número do Rui, precisamos de um homem, para não comermos demais!
Sorriam enquanto caminhavam em direcção ao carro de Sofia.
domingo, 7 de agosto de 2011
Caminho
Sofia resolveu deitar-se. Passara horas a olhar para a margarida já seca, apesar de se ter sentido extremamente feliz após a ter visto, agora recuava. Não queria despertar esperanças e emoções que tanto lhe custaram a acalentar.
Acordou muito cedo com o som da chuva contra as janelas, levantou-se e percebeu que, talvez hoje não fosse o dia mais indicado para a sua façanha. Desceu, sentou-se na cozinha a beber um copo de leite quente e deixou-se morrer ali na cadeira, ouvindo a chuva a cair ruidosamente. Enquanto essa moleza de inverno a invadia, refletia sobre o que tinha acontecido há uns anos. Talvez sem se aperceber ou talvez propositadamente tinha-se afastado dos seus amigos mais queridos e mais próximos. Começou a distanciar-se lentamente e iniciou uma nova fase da sua vida. Com o passar dos anos Sofia entendia cada vez melhor o mundo, e isso era, provavelmente o mais habitual. Há uns anos atrás julgava que todos eram amigos. Hoje sabia que ninguém se preocupa verdadeiramente, a não ser consigo próprio... Apesar de compreender melhor o intrincado e hipócrita comportamento humano, Sofia nunca entendera porque é que Rui e Maria a tinham deixado. Eram os únicos que restavam, depois de ela ter abandonado tudo. Acordou daquele estado de dormência, continuava a chover copiosamente, subiu, vestiu-se, voltou a descer e olhou para o sofá onde estava a margarida seca, pegou nela e olhou-a como se olha alguém que já não vemos há anos. Nesse momento percebeu que tinha muitas perguntas pendentes, as quais exigiam que resolvesse este enigma o mais celeremente possível. Abriu a porta e o vento forte invadiu a casa, olhou a praia, não era a mesma praia do dia anterior: o mar estava revolto, a espuma branca erguia-se nas rochas e o nevoeiro era espesso e frio como um muro de granito. Resolveu vestir o blusão, o inverno parecia ter chegado, no entanto estávamos ainda em Setembro.
Correu para o carro, depois de algumas tentativas arrancou e pôs-se a caminho, estava preparada para demorar, no entanto encontrou Maria mais rapidamente do que esperava.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
A casa da praia

Depois de uns longos dias passados no campo, com as flores, os abetos e os rios decidiu voltar à sua casa, a casa da praia. A viagem não era muito longa e, por isso decidira ir a fim da tarde, porque tudo era mais bonito e quente ao fim da tarde.
Era uma casa na praia como qualquer outra casa, simples com sabor a sal e a sol. As paredes eram brancas e as janelas, com portadas vermelhas tinham pequenos vasos no parapeito. Já lá tinha passado muitos momentos, bons ou maus, já não se lembrava, a única certeza que possuía era que pertencia ali.
Entrou, estava tudo como tinha deixado há um mês, só uma diferença: o pó havia-se acumulado em todos os recantos da casa. Subiu para o seu quarto, pousou o saco e olhou pela janela. Há tanto tempo que já não via o mar! E sentiu o seu cheiro absorvia-o como nunca. Cheirava a velas, a peixe, a rochas. Cheirava a mar e isso bastava-lhe para estar feliz.
Tomou um banho e decidiu ir ao sótão, já lá não entrava há anos. Gatinhou lá para dentro e deparou-se com um álbum de fotografias. Quis vê-lo mas tinha medo, não queria voltar a lembrar-se da sua vida antiga, dos caminhos que tinha tomado. Inspirou profundamente, como se de um mergulho no profundo oceano se tratasse e abriu-o. Ali estavam as fotografias da pequena Sofia, de vestido às flores a correr atrás de um animal qualquer. Mais à frente via as fotografias da sua juventude e das suas revoltas, sempre com a música e o sonho às costas. E numa fotografia distinguiu, entre uma multidão de gente que entoava cânticos de paz, os seus amigos: o rapaz loiro e a rapariga das tranças como gostava de lhes chamar. Por momentos sentiu-se feliz, mas nunca compreendera porque é que eles tinham desaparecido da sua vida. Isso entristecia-a. Deles só conservava as cores vivas das roupas e os olhos brilhantes. Perdera-os, não sabia onde estavam. Fechou o álbum revoltada e de lá caiu uma margarida seca pelo tempo, nesse momento desatou a chorar e os seus olhos brilharam, era tudo o que ela queria ver! Levou a flor consigo, pois naquele instante era o último grito de esperança da sua vida. Lá fora a noite chegava suavemente.
Era uma casa na praia como qualquer outra casa, simples com sabor a sal e a sol. As paredes eram brancas e as janelas, com portadas vermelhas tinham pequenos vasos no parapeito. Já lá tinha passado muitos momentos, bons ou maus, já não se lembrava, a única certeza que possuía era que pertencia ali.
Entrou, estava tudo como tinha deixado há um mês, só uma diferença: o pó havia-se acumulado em todos os recantos da casa. Subiu para o seu quarto, pousou o saco e olhou pela janela. Há tanto tempo que já não via o mar! E sentiu o seu cheiro absorvia-o como nunca. Cheirava a velas, a peixe, a rochas. Cheirava a mar e isso bastava-lhe para estar feliz.
Tomou um banho e decidiu ir ao sótão, já lá não entrava há anos. Gatinhou lá para dentro e deparou-se com um álbum de fotografias. Quis vê-lo mas tinha medo, não queria voltar a lembrar-se da sua vida antiga, dos caminhos que tinha tomado. Inspirou profundamente, como se de um mergulho no profundo oceano se tratasse e abriu-o. Ali estavam as fotografias da pequena Sofia, de vestido às flores a correr atrás de um animal qualquer. Mais à frente via as fotografias da sua juventude e das suas revoltas, sempre com a música e o sonho às costas. E numa fotografia distinguiu, entre uma multidão de gente que entoava cânticos de paz, os seus amigos: o rapaz loiro e a rapariga das tranças como gostava de lhes chamar. Por momentos sentiu-se feliz, mas nunca compreendera porque é que eles tinham desaparecido da sua vida. Isso entristecia-a. Deles só conservava as cores vivas das roupas e os olhos brilhantes. Perdera-os, não sabia onde estavam. Fechou o álbum revoltada e de lá caiu uma margarida seca pelo tempo, nesse momento desatou a chorar e os seus olhos brilharam, era tudo o que ela queria ver! Levou a flor consigo, pois naquele instante era o último grito de esperança da sua vida. Lá fora a noite chegava suavemente.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Solstício

O sol brilha lá fora, os pássaros chilreiam e o manjerico no peitoril da janela emana o seu cheiro que ela sorve como um néctar divino.
Os seus projectos já tinham sido maiores. Em tempos sonhara construir uma casa no meio do campo, ter uma quinta e mudar mentalidades. Achava, como todos que o seu país era pequeno demais e que a sua população era estupidamente básica e indecente. Os vícios dos outros repugnavam-na, porque eram um espelho dos seus próprios vícios. Já tinha, no seu passado intransigente viajado por entre manifestos e festas em que achava ter ganho alguma coisa. Desejara profundamente amar tudo e amar todos. Amar até que o coração o não quisesse mais. Ninguém estava lá para ela, mas ela não queria avançar, ninguém quer. Ameaçava o seu bem-estar. Seria doloroso fazê-lo como se tentasse educar um pequeno diabrete. Hoje senta-se na sua sala, olha pela janela e vê o sol. O céu parece novo, novo como nunca lhe pareceu antes e porque não lutar por um pedaço de sol? Todavia não lhe apetece minimamente sair da poltrona! Rebenta. Porquê lembrar-se de novo desses tempos irreverentes? Em que queria mudar tudo e a ela própria.
As coisas tendem a ficar onde estão é a sua natureza. Ela ia ficar na sua poltrona mais um pouco a olhar o céu e os pássaros na árvore. E cheirava a manjerico e a margaridas e a sol! Essas eram as únicas coisas que nunca a desiludiam, porque elas nunca fariam parte de si...
Os seus projectos já tinham sido maiores. Em tempos sonhara construir uma casa no meio do campo, ter uma quinta e mudar mentalidades. Achava, como todos que o seu país era pequeno demais e que a sua população era estupidamente básica e indecente. Os vícios dos outros repugnavam-na, porque eram um espelho dos seus próprios vícios. Já tinha, no seu passado intransigente viajado por entre manifestos e festas em que achava ter ganho alguma coisa. Desejara profundamente amar tudo e amar todos. Amar até que o coração o não quisesse mais. Ninguém estava lá para ela, mas ela não queria avançar, ninguém quer. Ameaçava o seu bem-estar. Seria doloroso fazê-lo como se tentasse educar um pequeno diabrete. Hoje senta-se na sua sala, olha pela janela e vê o sol. O céu parece novo, novo como nunca lhe pareceu antes e porque não lutar por um pedaço de sol? Todavia não lhe apetece minimamente sair da poltrona! Rebenta. Porquê lembrar-se de novo desses tempos irreverentes? Em que queria mudar tudo e a ela própria.
As coisas tendem a ficar onde estão é a sua natureza. Ela ia ficar na sua poltrona mais um pouco a olhar o céu e os pássaros na árvore. E cheirava a manjerico e a margaridas e a sol! Essas eram as únicas coisas que nunca a desiludiam, porque elas nunca fariam parte de si...
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